Manifesto Vagina

Andava há muito a adiar a escrita deste artigo, não muito fácil de escrever e, talvez, também não muito de ler. Peço desculpa por esse pormenor, mas não poderia estar a viver na Índia nesta fase de acordar preguiçoso sem falar desta temática no blogue. Violação a violação, consciência a consciência, as vozes vão-se começando a espreguiçar lentamente, outrora isoladas ou caladas, agora finalmente a formar um coro. Sendo homem, é claro que nunca conseguirei atingir totalmente a dimensão da dor infligida, mas, como já aqui afirmei no artigo “Espiritualidade, sexo e morte“, a luta por uma sociedade igual para todos não pode ser travada autisticamente: homens e mulheres têm de falar a uma só voz. O que se tenta hoje em dia nas ruas de Delhi mudar não pode ser visto como o grito do Ipiranga das mulheres contra os homens. Somos todos nós a dizer que estamos fartos.

As marcas nas vaginas espalhadas por todo este país deveriam estar no corpo de todos e não apenas nos das infelizes donas. E sim, digo vaginas, porque eufemismos e rodeios são também causas deste silêncio que tarda a tornar-se grito. Sim, este artigo é um manifesto às vaginas. Simplesmente porque estamos fartos.

Estamos fartos de ser a rapariga que à saída do cinema apanha um autocarro para casa mas que afinal tem como destino comportamentos que não podem pertencer a esta humanidade. Estamos fartos de ser o grupo de homens que acha normal violar e esventrar outro ser humano sem pensar nas consequências para a sua vida e para a dos que o rodeiam. Estamos fartos de ser largados nus à beira da estrada à espera da morte nos vir buscar. E fartos de só agora a comunicação social se preocupar e de isso só ter acontecido por a rapariga violada ser da classe média. Fartos da classe ou da casta importar, fartos de não se poder livremente falar. Sexo e vaginas e coisas tratadas pelos seus nomes. Fartos da hipocrisia e da boa educação. Fartos das mulheres com vergonha de o serem, e por isso ser tradição. Fartos da moralidade vazia vendida em livros antigos e mandamentos prontos a consumir, e fartos da falta de ética e valores nascidos de dentro de cada um e de todos nós. Fartos de situações como a da rapariga a morrer no hospital enquanto os jornais escorriam tinta sobre se ela ia casar com o rapaz que a acompanhava ou o porquê de estar à noite na rua com uma companhia masculina que não um marido, um pai ou um irmão. Estamos fartos de se tentar resolver as coisas com proibição em vez de educação. Estamos fartos pelo comissário da polícia de Delhi dizer que as mulheres não podem sair à rua sem uma companhia masculina, mas também fartos pelo facto de enfiar uma barra de ferro à força na vagina de uma menina não ser considerado violação e, portanto, ser um pormenor que não irá entrar para as contas durante o julgamento. E por falar em julgamento, quem julga todos os outros que continuam a apontar o dedo à violada em vez de ao agressor?

Para quando as marcas das vaginas e vidas destroçadas no corpo de cada um de nós? Não foste também tu, como ser humano, violado naquele autocarro por seis homens e uma barra de ferro? Não são nossas as cicatrizes da menina de sete anos em Goa, violada na casa de banho da sua própria escola primária? Não é nosso dever estar lá no sítio onde ela vai aprender para receber o mundo, mas que ao invés serve para ser vítima de como este mundo feito por nós a recebe? Estar lá quando numa esquadra de polícia é recusada a queixa a uma mulher violada, aconselhada a esquecer o assunto e a casar com o violador para evitar a desonra da família? Estar lá no exame médico à vítima, onde o médico enfia vários dedos na vagina para ver o quão ela está habituada ao sexo, avaliação “moral” do seu passado de “boa” ou “má” menina que influencia o caso do agressor em tribunal? Estar lá quando vem um senhor desconhecido cortar o nosso clitóris quando pouco mais se tem que dez anos e uma vida pela frente com as sensações e dignidade castradas? Estar lá quando é negada a entrada na cozinha ou local religioso a uma menina por esta estar menstruada? Estar lá e com um abraço lhe dizer que ela não é suja e impura por isso, que está tudo bem e que ela não precisa de ter vergonha de ser mulher? Estar lá depois da ecografia que faz a família decidir abortar ou matar o bebé depois de nascer só porque é uma ela? Estar lá, tanto com a menina de Caxemira quando os pais lhe derramaram ácido na cara por ter falado com um rapaz, como com a menina de Vasco da Gama que por ter sido violada aquando nova tem que escolher a prostituição como profissão pois já mais ninguém a aceita? Estar lá perto da fronteira com o Nepal, com as filhas que por desespero os pais vendem a traficantes, enganados pela retórica de quem está há muitos anos no negócio e por eles próprios já nem saberem como lhes dar pão e arroz? Estar também lá quando elas chegam ao red light de Mumbai, e assistir ao seu desabrochar para a adolescência? Assim, como quem está a aprender a deixar de ser criança. Sem os pais por perto, mas com tantos outros adultos a tomar conta delas. Estar lá a assistir a isso, aos políticos, homens de negócio e pessoas importantes que olham os olhos delas e vêem putas, e às meninas que olham os olhos deles e vêem mais nada que o resto das suas vidas? Ou estar lá quando uma rapariga tem de acabar com o namorado ou um rapaz tem de acabar com a namorada, porque os seus pais têm um casamento arranjado com uma pessoa que eles não conhecem mas que é “com certeza” a mais acertada para passarem o resto das suas vidas? Estar lá quando a noiva tem de dizer adeus à sua família para ser reintegrada na família do novo marido, a troco de um dote tal e qual mercadoria à espera de novos donos para ser usada? Carne mastigada. Estar lá no parlamento onde muitos dos que ali mandam já violaram mas são demasiado grandes para alguém lhes apontar o dedo? Estar nas ruas à volta, no meio daqueles que protestam pelo direito de viver sem medos mas que são demasiado pequenos para serem ouvidos por mais do que canhões de água e balas? (das verdadeiras, não das de borracha) Estar lá com aquela mãe que me disse que o filho vai à escola  mas a filha não pode ir, porque o medo de ser violada no caminho é maior que a esperança de um futuro melhor? Estar lá com essa e com todas as outras meninas que, no intervalo das brincadeiras dignas da sua idade, tem também de brincar ao medo e às coisas dos adultos? No dia em que estivermos lá; a sentir as suas dores como nossas dores, as vaginas fodidas como nossas vaginas, a dignidade fodida como a nossa dignidade. Fodida sim. Se encontrarem melhor palavra avisem-me por favor.

Nesse dia talvez, no meio de lágrimas que não nossas, seremos então capazes de chorar e gritar como se fossem de nossos olhos.

Nesse dia talvez, olharemos a mulher como algo mais que um corpo no meio de um jogo de homens. Ping pong: sem vencedores mas sempre com a mesma derrotada. Nesse dia talvez, deixaremos de ser o júri a observar no escuro e a fazer nada mais do que contar pontuação: contas de cabeça, 280 mil violações na Índia por ano com 0,16% de taxa de condenação. No mundo todo, uma em cada três mulheres agredidas ou violadas ao longo da vida, de acordo com a ONU. Talvez nesse dia, toda esta violência deixará de ser uma divisória que nos separa, uma barreira nua e indefesa que neste momento tem de se resignar a cada pancada que leva. A cada facada, no corpo e na alma. A cada golpe a sangue frio no clitóris. A cada litro de ácido derramado num rosto inocente e para sempre desfigurado. A cada tiro recebido por uma palavra gritada que ninguém quer receber. A cada proibição de um ser humano crescer livremente como deveria ser seu direito, violado todos os dias enquanto fingimos que olhamos para o lado.

Quantos mártires vão ser precisos? Quantas vaginas e quantos corpos?

De quantas facas se vai fazer esta liberdade?

E por falar em vaginas, termino a partilhar um depoimento quase em performance spoken word da criadora dos Monólogos de Vagina: http://www.ted.com/talks/eve_ensler.html

A sentir de corpo cheio.

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24 thoughts on “Manifesto Vagina

  1. Paraíso diz:

    Antes de tudo o texto soou-me estranho… estranho porque não me é comum ler sobre esta temática sob o ponto de vista de um homem! E que estranho que me é pensar que um texto sobre as mulheres e os direitos das suas vaginas não é comum ser escrito por um homem. E que triste este meu sentimento de estranheza! Realmente o que nos define como humanidade passa também pela empatia pelo outro, pela consciência do outro enquanto ser que sente, independentemente de ser ou não igual a nós. De facto enquanto continuarmos virados para o nosso próprio umbigo (ou vagina ou pénis ou grupo etário ou espécie ou…) vamos continuar a viver em sociedade finalizando a sobrevivência e não a consciência, um grupo de selvagens organizados.
    É verdade que enquanto mulher é fácil sentir a afamada empatia e simplesmente colocar a questão “e se eu tivesse nascido lá?” ou simplesmente “se eu tivesse nascido há 80 anos?”… será assim tão difícil pensar “se eu tivesse nascido mulher?”. Pergunto-me, se eu tivesse nascido homem, como olharia para estes exemplares do meu género?
    Obrigada pela reflexão e,mais uma vez, parabéns pela qualidade a que nos vens habituando!

  2. mljeronimo diz:

    Obrigado pelas vossas palavras amigas, acho mesmo importante que os homens comecem a falar destas questões… é ridículo ser de outra forma.

    E agora falando da realidade indiana, apetece mesmo gritar para esta juventude acordar, o que tem tudo a ver também com o meu artigo anterior. Está tudo ocupado em se conformar com a boa educação e os costumes. Não há rasgos, tanto artisticamente como socialmente. Não se questiona o estado das coisas, não se levanta a voz a alguém mais velho ou mais importante ou mais rico ou de casta superior. Revolta-me esta boa educação que não leva a lado nenhum!

    Mas as coisas estão seguramente melhorar, por exemplo o espectáculo Vagina Monologues que no início tinha oposições muito fortes aqui na Índia, com por exemplo as actrizes serem impedidas pela polícia de entrar nalgumas cidades onde iam estrear a peça, onde agora já vão actuar e a peça conta com muitos anos de exibições em vários sítios e de casa cheia. O problema é que, como é óbvio, é a classe mais abastada e instruída que vai… agora é preciso é levar isto aos slums, às ruas. Pôr actores ao lado das actrizes, homens a contar como lhes cortaram o clitóris quando eram novos, ou como são violados pelo tio ou sofrem pressões psicológicas da sogra. Confrontar as pessoas com esta ideia (tão simples e natural mas tão inovadora para esta cultura) de que não passamos todos de seres humanos…

    Levar isto também às zonas rurais, onde percebi por exemplo na semana passada que a grande maioria dos homens tem problemas de alcoolismo (outra questão sensível tão enraizada nesta cultura… tantas proibições e restrições ao álcool (para muita gente é quase visto como um pecado consumir sequer uma cerveja!) que ele passou a ser uma espécie de tabu, onde os pobres desesperados pela sua vida (só os homens é claro) consomem em força como hábito passado de geração em geração e, quando bêbados, dão incríveis cargas de porrada nas mulheres e nas crianças. Cargas abismais mesmo, mas que estão tão entranhadas na cultura que as mulheres não se queixam… passou a estar integrado no que é o “normal”. Com tudo o que têm de lutar diariamente para sobreviver ainda têm de aceitar isto caladas e sem se revoltar…

    E por falar nisso aproveito para partilhar algo que me tem estado sempre na cabeça nos últimos tempos, o filme “Women are Heroes” do artista JR: http://www.youtube.com/watch?v=F0XpI5qDF6g
    São mesmo!

  3. Meu querido,
    Uma vez utilizei uma expressão e ficou: Fúria dos Pacifistas. Sabes meu querido é formidável a forma como sentes. Começas o texto por dizer o quão difícil seria certamente chegares ao ponto de uma mulher, ou expressares a melancolia e dor vividos por uma mulher, porque não o és. Como mulher que sou não o teria escrito de melhor forma.
    Ontem estive na Assembleia Geral da Junta de Freguesia da Falagueira ( Amadora) e são igualmente um bando de bem educados, visto que esta junta aglomera o Bairro Casal do Silva, onde meninas ciganas aos 12 são retiradas da escola com o intuito de casar. E gente, casar na etnia cigana significa isto: uma menina de 12 anos com um grupo de mulheres casada numa divisão de uma casa qualquer, onde a mulher mais velha lhe enfia os dedos pela vagina até fazer sangue, esse sangue escorre para um pano e esse pano é atirado pela janela para o pai cheirar e assegurar-se de que o sangue é mesmo o sangue da vagina. Isto porque muitas vezes as meninas não sangram e as mulheres ciganas para poupar a honra dela e de toda a sua família faziam cortes nos braços das meninas, tentando evitar o inevitável. Uma menina cigana não pode ir a casa de um amigo ou passear a noite fora com as amigas porque no dia a seguir para manter a sua honra terá que ser obrigatoriamente casada!
    MGF( mutilação genital Feminina) em mulheres/meninas portuguesas de ascendências africanas ou indianas. E como têm essa cultura poupamos e dizemos, isso não acontece. Poupamos a nossa consciência quando passamos no Martim Moniz, ou ao pé da Agronomia. Porque nós fazemos parte de uma país do primeiro mundo.
    Obrigada Miguel por seres quem és. Mas muito mais te agradeço porque de uma forma singela fazes parte do pelotão furioso mas sempre pacifista.

  4. Mafalda diz:

    Obrigada meu querido Miguel.
    Estou comovida com cada palavra escrita, que me atravessou a alma de uma forma quase física.
    Obrigada pela tua coragem, pelo não conformismo, pelo falar por aqueles que não têm direito a ter voz, pela sensibilidade, pela indignação, pela dor, pelas lágrimas que me caiem pelo rosto, pela força do teu testemunho!
    Mais um passo dado no caminho da essência!
    Mais um beijo gigante nessa Alma bonita.
    Mafalda

  5. sararosé diz:

    Mj, nem sei o que dizer, porque tu já disseste tudo e da forma mais poderosa e simples que se poderia desejar.
    É mesmo, mesmo, mesmo, isso. Não consigo dizer mais nada. Um beijinho grande para ti. <3

  6. Pedro Formozinho Sanchez diz:

    Querido Miguel
    Tu não me surpreendes, tu espantas-me com esse toque sensível com que tocas em todas as nossas “vaginas” repletas de dor e sofrimento e ao mesmo tempo de indignação ao constactarmos o quanto ainda temos que caminhar.
    Mas esse teu toque “vaginal” também nos provoca prazer, pelo modo com introduzes os teus dedos, da escrita, como que querendo ao mesmo tempo excitar os nossos pensamentos e trazer o sentimento da dor e da revolta de todas as violadas deste Mundo.
    Bem haja meu querido amigo.
    PedroFSanchez

  7. Irina diz:

    Mais do que nós estarmos fartos, eles também têm que se fartar, e têm que ter a noção que têm direitos, que os direitos são legítimos, que são seres plenos. São séculos a viverem num sistema de castas e opressão, mentalidades assim não se mudam da noite para o dia, mas é por isso que tu aí estás, não é? :) infelizmente há milhões de pessoas que nem sequer sabem o que é ter direitos, este conceito é abstracto para muitos.
    Nunca paras de me surpreender!
    Beijinhos Miguelito

  8. mljeronimo diz:

    Obrigado pelas vossas palavras amigas, precisamos mesmo de (em conjunto) virar isto de pernas para o ar! Ainda ontem uma banda de Caxemira desistiu de tocar porque era formada apenas por raparigas, e esse facto estava já a incomodar alguns “líderes religiosos”… nem tinham qualquer tipo de letras reaccionárias, o incómodo (e a “fatwa” que se seguiu e que as levou a desistir) vinha só mesmo pelo facto de conseguirem Ser sem a intervenção de um homem…

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